Gastronomia por Roberta Sudbrack
27/07/2007 ..
Falando em obras...
Falando em obras, minha casa está nessa fase. Tenho andado mal-humorada e sem um lugar para chamar de meu! Eu detesto obras! Detesto obra no vizinho, na rua, no restaurante, mas, mais que tudo, detesto obra em casa! Fico perdida, sem teto literalmente.
Ontem presenciei uma cena típica de desenho animado, que demonstra bem os males que obras podem causar aos neurônios alheios. Meu adorável golden retriever Frederico, que adora uma rua, um passeio e, principalmente, uma viagem, se recusou terminantemente a sair de casa. Estava de passagem marcada para passar um final de semana no lugar onde mais adora e simplesmente desmarcou a viagem. Eu, que também ando atordoada e sempre acreditei em sinais, não insisti. Chegamos à conclusão de que ele se recusou a sair e deixar a casa sendo destruída por pessoas que não conhecia!
Bem, hoje o caos se tornou insuportável e ele foi. Acredito que não deva estar arrependido, porque as possibilidades de conforto estão cada vez menores por aqui.
Mesmo assim, diante do caos doméstico, ontem vivi uma sensação de plenitude gastronômica. Eu adoro muffim inglês, sou absolutamente maluca por eles. Morei alguns anos nos Estados Unidos e aprendi a depender deles desde então. Adoro cortar ao meio, passar manteiga, colocar na torradeira e esperar atingir o ponto quase perfeito. Ou seja, nem muito torrado, nem pouco torrado, se é que me entendem? Há que se manter o dourado quase toscano na parte onde a manteiga foi passada e deixar ligeiramente crocante o outro lado, mas sem deixar dourar. Depois disso, simplesmente retiro da torradeira e repouso uma colher bem cheia de geléia Bonne Maman de morangos – que está acabando, oh céus! – bem no centro ainda quente. Uma xícara de café preto bem quente e lá vamos nós explorar as beiradas no muffim até atingir o seu centro repleto de doçura!
O problema, além dos incômodos da obra, é que não encontro esse tipo de muffim no Brasil. Então, a princípio, essa cena me pareceu miragem de uma mente perdida! Mas ontem passei no Celeiro, numa das minhas fugas da batucada da obra, para comprar o bolo de laranja mais incrível do Leblon e me deparei com um pão que se chamava: muffim. Pensei: “Não pode ser. Minha cabeça deve estar latejando por causa das marteladas!”. Mas, como nunca resisto a nada que me chame atenção, seja lá o que for, agarrei o dito cujo e rumei para casa sem me importar com a barulheira que ainda esperava por mim. Abri, cheirei, toquei e quase chorei. Além de ser muffim, o sabor desse pão tão especial preparado pelas mãos da minha mestra Rosa Heinz me lembrou o pão feito pelos colonos alemães na serra gaúcha!
Mais uma prova de que para a gastronomia não há limites e que até nas situações mais adversas ela pode manter os seus encantos...
Ainda assim, se me permitem, vou aproveitar a desculpa da desordem doméstica e subir a serra no domingo em busca do frio quase perfeito, com meu muffim debaixo do braço é claro!
Volto na terça!
Até!
26/07/2007 ..
Mãos a obra...
Eu detesto obras! Não sei conviver com elas, não consigo imaginá-las depois de prontas, não consigo visualizar uma só parede de outra cor! Não adianta, podem fazer esboços, simulações, desenhos, seja lá o que for, não me ajuda! Continuo vendo tudo da mesma forma, ou seja: quebrado e sem chances de reconstrução!
Já um prato, pode sair inteiro da minha cabeça sem que eu tenha sequer imaginado a sua estrutura antes. Posso olhar um ingrediente e a partir dele estruturar toda sua espinha dorsal imediatamente. Naquele momento passam rapidamente pela minha mente possibilidades, combinações, cores e definições necessárias para o inicio do processo criativo. A partir daí começo a simular ainda na mente, o sabor, o aroma e as sensações que eu espero atingir. Muitas vezes ele sai inteiro e pronto para a vida, noutras, ajustes irão acompanhar o seu amadurecimento. Seja como for, é um processo livre dentro da coerência que eu considero necessária para a criação.
Incrível como as pessoas são diferentes e dentro de cada uma carregam um mundo de possibilidades. Impressionante como a descoberta dessas possibilidades pode abrir um leque de alternativas ou reduzi-las a pó! Descobrir dentro de cada membro de uma brigada de cozinha, as melhores possibilidades, as maiores habilidades, a parte mais delicada ou a posição onde cada um é mais inteiro e verdadeiro, é a parte mais complexa dessa equação.
Não por isso, deixa de ser também a mais interessante! Essa busca pelo equilíbrio coletivo e pessoal é justamente o melhor pedaço do bolo, aquele mais molhadinho e repleto de brigadeiro que todo mundo anseia conseguir!
Até!
25/07/2007 ..
Prato principal...
Na estrutura de um menu estão envolvidos mais elementos e delicadezas do que se pode imaginar. A experiência, para ser plena, começa desde que o pão repousa quente e suavemente à sua frente até quando você se levanta para ir embora.
Eu sou apaixonada pelos rituais. Na minha opinião, a cozinha pede ritual, anseia por etapas, equilíbrio, emoções diversas e sensações distintas. Um menu tem o papel de conduzir e de criar esse roteiro. De separar os atos como numa ópera.
E nessa ópera tudo tem a mesma importância, seja o ritmo, a temperatura, a cadência, ou o balé. Muitas vezes por mais genial que seja o tenor, a verdade é que até a chegada do prato principal, muita coisa acontece dentro e fora dos pratos. Muita expectativa permeia o entorno. Muita energia gira ao redor de cada ingrediente. De cada gesto, de cada interpretação.
Conduzir tudo isso com a mesma dose de delicadeza, pulso e envolvimento é das tarefas mais difíceis. Envolve, acima de tudo, emoção e técnica sempre nas mesmas proporções. Dosar, pesar e concluir essa receita nem sempre é uma ciência exata. Mas exatamente por isso é tão fascinante!
Até!
24/07/2007 ..
Recordar é viver...
Ainda sob forte emoção, aí vai a foto do momento histórico, quando fui premiada pelo técnico da seleção brasileira de handebol, com a camisa oficial do time tricampeão!

Na cozinha busco diariamente essa emoção, ou seja, a de poder reviver de alguma maneira, sensações que ficaram para trás. O nosso grande desafio é fazer com que a comida possa ser esse fio condutor. Um aroma, um sabor, uma textura. O grande barato está no fato desse transporte ser livre e proporcionar uma viagem a partir de qualquer detalhe. A grande viagem é aquela que nos pega de surpresa e principalmente de jeito! Aquela que sem a gente perceber nos transporta para uma dimensão diferente sem perguntar se estamos preparados.
Até!
23/07/2007 ..
Mesmo fora das quadras...
Eu, que tanto falo sobre lembranças e diariamente me debruço sobre elas para reger a minha cozinha, levei um susto com elas essa semana. As melhores lembranças, de um tempo que eu achei que não voltaria mais, acabaram tomando conta de mim e me guiando por uma viagem para lá de emocionante.
Tudo o que eu faço na vida é regado – muito regado! – a obstinação. Foi assim desde os tempos da carrocinha de cachorro quente nas ruas de Brasília até a cozinha presidencial. E, como não poderia deixar de ser, foi assim também nos meus melhores tempos de atleta!
A memória desse tempo veio à tona essa semana, com a emocionante vitória da seleção brasileira de handebol feminino. Lembranças da equipe, dos treinos e até do sanduíche frio de presunto e queijo que comíamos depois dos jogos! Da laranja cortada em quatro sem tirar a casca, que chupávamos para repor as energias. Do meu avô, que ficava bravo, porque dizia que encostar os lábios na casca da laranja causava feridas e em casa jamais permitia que comêssemos laranja dessa maneira. Mas nos treinos eu acabava comendo, não sem uma pontinha de culpa...
Lembranças inesquecíveis daquela época tomaram conta de mim, momentos marcantes, defesas emocionantes. Apoio, união da equipe, amizades, que, apesar de terem se perdido pelo caminho, continuam vivas nas memórias. Lembranças da luta pela precisão, da busca pela perfeição que não existe! A concentração nos treinos, nos jogos. A busca pela superação dos limites. A técnica aliada à emoção...
Pensando bem, só mudei de quadra, do gol do handebol para a cozinha! Porque, no fundo, buscamos diariamente todos esses objetivos e vibramos feitos loucos diante de cada conquista dentro da nossa cozinha!
No final das contas não mudou tanto assim a minha rotina de vida e, mesmo fora das quadras, fui condecorada pelo técnico da seleção brasileira de handebol, tri-campeã panamericana, com a camisa – autografada! - da super goleira Chana!
Até!
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